De amor, ódio e fé se fez Roma

Uma voz ao Vento, de Francine Rivers, publicado pelas Edições Asa, traduzido por Mário Dias Correia, é um romance bíblico, como o comprova o prefácio. Contudo, para além do objetivo de consciencializar os leitores «fazendo-os crescer» no que ao Outro diz respeito, esta história merece-me um elogio pela forma como 647 páginas prendem o leitor do romance da primeira à última.

A narrativa conta a história de Hadassah, uma jovem escrava judia-cristã, sujeita às vontades dos seus donos, mas cuja coragem e resiliência ditam o seu comprometimento quotidiano com a esperança e a fé. Tudo se passa 70 anos D.C., de Jerusalém e Germânia à Roma Antiga dos legionários e imperadores, antevendo-se a asfixia desse vasto império e o seu eminente desmoronamento.

O enredo vai construir-se a partir de intrigas familiares e políticas, onde a decadência, a luxúria e a desumanidade do ser humano estão no auge. Assistimos às consequências da destruição de Jerusalém, com o massacre dos vencidos e a captura dos sobreviventes, às contínuas perseguições aos cristãos, à despiedade inerente à compra e venda dos escravos, aos desagravos e maus tratos infligidos por aqueles que os adquirem, à brutalidade das arenas, enfim ao que de mais vil tem o ser humano.

Paralelamente, contudo, a autora conta-nos uma outra história: a do amor, dedicação, afeto, proteção, esperança, compaixão, encaminhando o leitor de forma subtil ao propósito deste romance. Isto é, revelando-lhe o Mal na sua essência e o revés da moeda: a capacidade de fazer o Bem, convidando os leitores à reflexão sobre o quão desnudada de humanismo pode ser a Humanidade.

Uma voz ao Vento é igualmente uma grande história de amor entre Hadassah e o jovem aristocrata Marcus, onde se inscrevem, como é evidente, o drama e a paixão; é também a história de Atretes, um soldado capturado na Germânia, forçado a tornar-se um gladiador. A história desta personagem leva o leitor a sofrer com ela, a revoltar-se com ela e por ela, por tudo o que lhe acontece e ao que está sujeita. Os contínuos sobressaltos aos quais o leitor está sujeito são o que inscrevem a autodestruição de Atretes, cuja personalidade é subjugada pelos outros, inclusive por ele, tendo este de alterar a sua essência para poder sobreviver na arena e chegar a ser motivo de júbilo para o imperador. Esta é ainda a história de Júlia, senhora de Hadassah, cuja vida é narrada para que o leitor conheça o quotidiano de uma jovem romana, oriunda de uma família muito influente, que casará, enviuvará, voltará a casar, consoante os costumes da época em Roma.

Toda a diegese e o próprio final estão construídos de modo a que o leitor entenda a mensagem que Francine Rivers quer transmitir, o que é inteligível pela postura da personagem principal relativamente às restantes que com ela convivem, relativamente às dificuldades que enfrenta, com humildade e abnegação, relativamente ao cuidado que dedica à família Valeriano, nomeadamente ao amo aquando da sua morte. A referência de personagens bíblicas como Jesus Cristo e Maria Madalena, a presença de apóstolos como João e Tiago confluem para essa intenção autoral: anunciar a fé como redenção.

Atribuo 5 estrelas à obra enquanto romance bíblico.

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